Você sabe se está comendo Chester, peru ou frango? Entenda a diferença

Aves especiais com maior concentração de carne em partes nobres, como peito e coxa, chamam atenção; entenda o que há de diferente na criação e no sabor

Via Canal Rural

Imagem: divulgação

Quem foi ao supermercado nos últimos dias deve ter percebido que o frango tradicional cedeu espaço no freezer para outras aves. Além do tradicional peru, também são facilmente encontradas aves com nome diferentes, como Chester e Fiesta. O que muita gente não sabe é que essas aves especiais, como são chamados os exemplares dessa categoria, também são frangos. Ok, talvez o melhor termo seja “superfrangos”, mas ainda são aves da mesma espécie.

O peru, que durante décadas reinou absoluto nas festas de fim de ano, é uma espécie que surgiu muito provavelmente onde hoje é o México, e agora é criada em todo o mundo. Enquanto frangos podem chegar a aproximadamente cinco quilos, perus podem bater 40 quilos. Eles têm membros maiores, o que rende mais carne.

Diferenças na criação do Chester, Fiesta e frango comum

De acordo com o pesquisador Elsio Figueiredo, da Embrapa Suínos e Aves, o grande segredo por trás das chamadas aves especiais está na genética. As empresas de proteína animal, como Seara e Perdigão, fizeram um intenso trabalho de selecionamento genético para obter animais maiores e, principalmente, com mais rendimento de coxa e peito.

De acordo com a gerente-executiva da Perdigão, Luciana Bulau, o trabalho de seleção genética do Chester – que é a marca registrada de aves especiais da empresa e não o nome da espécie do animal – começou a partir da importação de uma linhagem escocesa presente nos Estados Unidos, na virada dos anos 1970 para 1980.

“Importamos uma genética que realmente prezasse pelo porte da ave. É uma raça mais favorecida em partes nobres, como peito e coxa. Costumamos dizer que 70% da carne está nessas partes”, diz Luciana. “Chest”, aliás, significa “peito”, em inglês.

A executiva destaca que, além disso, um diferencial do Chester é o tempo de abate. Enquanto frangos tradicionais costumam ser abatidos, em média, aos 35 dias de vida, a ave especial da Perdigão vive até 50 dias, ganhando mais musculatura.

Segundo a gerente-executiva da Perdigão, o Chester também é alimentado com uma ração especial produzida pela BRF. “Essa dieta proporciona vitaminas e minerais necessários para que ele possa se desenvolver”, frisa.

As empresas destacam, também, o critério elevado que é aplicado a granjas e produtores dedicados à produção das aves especiais, visando qualidade e bem-estar animal. A Perdigão, por exemplo, concentrou a produção na fábrica e nos produtores da região de Mineiros (GO), e oferece treinamentos para qualificar os avicultores.

Por que o frango comum é abatido mais cedo?

Figueiredo, da Embrapa, afirma que o criador tem buscado a antecipação do abate principalmente por questões econômicas. “Agora que o milho está muito caro, por exemplo, quanto mais tarde for abater, menos lucro vai dar”, esclarece.

Aliás, uma curiosidade: graças à antecipação do abate, o consumidor encontra coxas e outras partes do frango com ossos menores do que antigamente, já que o animal ganhou peso sem necessariamente se desenvolver mais.

E como o peru é criado?

Pode até soar estranho, mas segundo o médico-veterinário e gerente agropecuário de perus da Seara, Jovani Felipetto, o manejo de perus é mais parecido com o de suínos do que com o de frangos tradicionais. O ciclo de produção é dividido em duas fases: manejo iniciador e terminador.

Em entrevista ao programa Ligados & Integrados, Felipetto contou que o manejo iniciador do peru vai do 1º ao 34º dia de vida. Os primeiros dias são mais delicados, porque os animais tendem a ser suscetíveis a doenças e precisam de alguns cuidados especiais em relação à alimentação.

A ave chega à granja para terminação com peso médio de 1,4 quilo. O tempo total até o abate varia de 62 dias (fêmea leve) até 150 dias (macho pesado).

A granja também possui equipamentos diferentes dos que estão presentes em uma granja de frango, de acordo como o tipo de animal que está sendo criado.

As rações obedecem a diferentes níveis nutricionais para atender às diferentes fases de produção dos perus. De acordo com a supervisora da fábrica de rações da Seara, Mariele Mellitz, a quantidade de proteínas, por exemplo, pode variar entre 17% na fase final até 30% nas fases iniciais.

“Além disso, a questão física da ração também é importante. A ração pré–inicial passa pelo processo de peletização normal e depois é bem triturada, já que é oferecida aos peruzinhos que saem do incubatório e são alojados na granja, cujo sistema digestivo ainda está sendo desenvolvido. Já a ração inicial tem uma granulometria um pouco maior. A ração para as granjas de terminadores, por sua vez, é a ração de crescimento e tem uma qualidade de pellet normal”, diz Mariele, ao programa.

Dá para sentir a diferença no prato?

O pesquisador da Embrapa afirma que a diferença mais notável entre as aves consumidas nas festas de fim de ano é no volume de carne. No caso do Chester, Luciana acrescenta que a carne tende a ser mais macia, tenra e suculenta (mais úmida) do que a proteína de um frango comum. Já a carne do peru é mais seca, um pouco mais rígida e tem um sabor mais acentuado do que a do frango tradicional.

Mercado de aves especiais

Luciana Bulau afirma que a demanda pelo Chester vem crescendo ano a ano. Em 2020, a pandemia da Covid-19 pode até alavancar as vendas, por forçar reuniões familiares menores. “Se tínhamos uma ceia com 30 pessoas, agora teremos três ceias com dez pessoas”, comenta.

Apesar da crescente procura, a Perdigão não pretende expandir a produção de Chester para o ano todo por questões estratégicas. “E também pela complexidade de criação. Por conta da alta demanda, a produção começa em abril”, diz.

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