Colider (MT): moradores de rua ou em “situação de rua”? Como compreender a questão?

Profissionais do CREAS trabalham o acolhimento social destes moradores de rua ou em situação de rua. E sugere que as pessoas tenham um olhar de afeto e compreensão.

Por Claudemir G. de Lima

Moradores em situação de rua na cidade de Colider (MT)- Foto: Altonorte

Ainda em pleno contexto do combate à pandemia do novo coronavírus e desta retomada econômica dos comércios, um cenário tem chamado a nossa atenção pelas vias urbanas: os moradores de rua e os que vivem em situação de rua por perca de bases econômicas e familiares.

O problema dos que estão vivendo na rua precisa ser entendido de modo analítico através da abordagem de psicólogos, assistentes sociais, entre outros, que lidam diretamente com comportamentos sociais. O olhar mais técnico evita a formulação de preconceitos contra os moradores de rua. Dizeres como “eles enfeiam a cidade”, entre outros, são frases comuns de serem ouvidas.

Morador de rua agasalhado (local não identificado) – Foto: Ilustrativa da matéria (Google Imagens)

Em Colíder (MT) as cenas são similares a de várias cidades pelo Mato Grosso e em geral pelo Brasil. Os que estão morando na rua por opção há bastante tempo têm uma experiencia de sobrevivência melhor do que aqueles que estão ali oriundos da perca dos meios econômicos.  Os que estão desalojados, afastados da família, e com anseio de retornar a uma identidade social anterior, talvez, sofram mais. E ambos precisam de assistência humanizada.

A Coordenadora do CREAS (Centro de Referência Especializada de Assistência Social), Agda Cazelato, indagada sobre a situação, expõe esta classificação de forma dupla para uma melhor compreensão: os que estão como morador de rua e os que vivem em situação de rua, como “estagiários” forçados por algum problema a permanecerem assim, na rua.

Segundo Agda Cazelato e Tais Basaia (Assistente Social, CREAS/Colíder/MT), aqueles que se encontram ali como morador de rua fizeram escolha e mesmo fazendo a condução voluntária para um abrigo, com oferta de melhores condições de vida, acabam retornando à rua.

“As pessoas em situação de rua não têm aonde se apegar, mas quando oferece uma oportunidade elas agarram. Essa pessoa está vivendo aquela situação porque ainda não encontrou meio de sair (daquela condição), mas quando oferece algo elas agarram e tentam um caminho melhor”, enfatiza Agda.

“Quando são moradores de rua, que são os que nós temos aqui, estão assim às vezes como opção”. A coordenadora deu um exemplo de um morador de rua que recebeu oferta de alojamento, mas acabou voltando para a rua.

Além do alojamento provisório, o CREAS conta ainda com a Casa da Sopa no Bairro Bom Jesus para dar apoio aos moradores de rua.

 A psicóloga Natalia Bisoullo do CREAS (Colíder) afirma ainda que os moradores em “estação de rua” ou “trajetória de rua” ás vezes estão fugindo de regras domesticas para poderem consumir bebidas alcoólicas e drogas na rua. Estes possuem famílias com moradias na cidade e retornam às suas casas quando sentem vontade.

“Essas pessoas acabam permanecendo na rua por conta da conversa, mas no final do dia retornam para casa. Dentro de casa a família estabelece regras e não pode ficar bebendo. Na rua eles compram e dividem entre si as bebidas alcoólicas”, complementa a psicóloga Natalia.

Os moradores de rua transeuntes, aqueles que estão sempre se deslocando de região para região, às vezes são trabalhadores nômades, e quase sempre, explorados em serviços braçais em fazendas.

Segundo o CREAS (Colíder/MT) ainda não houve resistência por partes dos moradores quando foram abordados ou conduzidos para oferta de um benefício. Para evitar confronto ou resistência, a assistência social utiliza técnicas de abordagens próprias para cada situação. Como há uma relação de respeito, não houve necessidade de ações mais duras de coerção.

Na parte da manhã, por exemplo, eles estão mais calmos, por não terem ingerido bebidas alcoólicas; neste período estão mais receptivos e tranquilos, enfatiza Tais Basaia, assistente social. Eles costumam ser respeitosos com a equipe de campo do CREAS e sempre quando aparece algum novato na turma eles levam até a unidade para solicitar ajuda.

Agda Cazelato explica que em Colíder (MT) têm apenas uma pessoa que é realmente morador de rua; que vive na rua como escolha de vida e que pode mudar de cidade assim que achar conveniente. Os demais, são indivíduos em situação de rua, ou seja, que estão como andarilhos pela cidade, mas possuem famílias com casas na cidade.

O CREAS afirma que está dando total amparo as estas pessoas. Todos estão cadastrados no sistema do governo federal e alguns deles já receberam facilmente o auxílio emergencial.

Para evitar que moradores de rua ou em situação de rua percam seus documentos pessoais, o CREAS guarda em pastas com identificação individual. Na maioria das vezes, são eles mesmos que pedem para guardar o documento. O CREAS arquiva os documentos originais e fazem cópias coloridas e entregam para eles para que possam portar suas identificações. O objetivo é preservar a documentação. “Aqui é o espaço de guardar. Eles sabem que aqui é um lugar de acolhimento”.

Os moradores de rua ou em situação de rua tem o CREAS como ponto de referência para endereço. Quando algum deles precisam viajar eles procuram o CREAS para se higienizar. Algumas empresas de ônibus têm regras rígidas quanto ao transporte de andarilhos/mendigos e ainda os que estão sob efeito alcoólico.

Ainda segundo, Natalia (psicóloga), o CREAS tinha um projeto recente para ser implementado, mas devido a pandemia de Covid-19, tiveram que adiar.

Alguns moradores de rua têm graves problemas de saúde mental, como esquizofrenia, entre outros males físicos. A coordenadora relatou que houve um caso de que conseguiram fazer a recondução de um morador para sua família em outra cidade.

Profissionais do CREAS trabalham o acolhimento social destes moradores. E exige que as pessoas possam olhar esses moradores que estão ambientando o espaço urbano com um olhar de afeto e compreensão. O que puder fazer para ajudar, será sempre bem-vindo.

Morador de rua se protege do frio em São Paulo, em São Paulo (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

*Os nomes repassados em algum momento pelos entrevistados não foram relacionados aqui para proteger as identidades dos moradores de rua ou em situação de rua.

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