Estudo aponta que 30% das onças-pintadas mortas ou deslocadas por causa do desmatamento na Amazônia são de MT

De acordo com o estudo, a perda de habitat natural – provocada sobretudo pelo desmatamento – e a caça são hoje as principais ameaças para a sobrevivência das onças-pintadas.

Por Kethlyn Moraes, G1 MT

Ousado descansando no Pantanal um ano após sofrer queimaduras de 3º grau por causa dos incêndios na região Foto por: Marcelo Tchebes

Segundo um estudo feito por cientistas brasileiros na revista ‘Conservation Science and Practice’, realizado entre 2016 e 2019, um total de 1.422 onças foram mortas ou deslocadas por causa do desmatamento na Amazônia. Desse total, 438 foram em Mato Grosso, o que representa 30% das onças mortas ou deslocadas.

O estudo aponta que Mato Grosso é o segundo estado com maior número de onças mortas ou deslocadas na região da Amazônia, estando atrás apenas do Pará, onde esse índice foi de 537.

Em seguida estão o Maranhão (134), Roraima (117), Amazonas (95), Rondônia (60), Tocantins (58), Acre (15) e Amapá (2).

De acordo com o estudo, a perda de habitat natural – provocada sobretudo pelo desmatamento – e a caça são hoje as principais ameaças para a sobrevivência das onças-pintadas, espécie-símbolo em situação de vulnerabilidade no país.

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre agosto de 2020 e julho de 2021, meses em que se mede a temporada do desmatamento, a Amazônia Legal perdeu mais de 10 mil quilômetros quadrados de floresta, um aumento de 57% em relação ao período anterior e o pior desflorestamento dos últimos dez anos.

Esse cenário, além de agravar o risco de extinção na região, provoca o deslocamento de animais.

Os cientistas também apontam que alguns estados estão associados ao ‘Arco do Desmatamento’, região onde a fronteira agrícola avança em direção à floresta, indo do leste e sul do estado brasileiro do Pará em direção ao oeste, passando pelos estados de Mato Grosso, Rondônia e Acre.

“É mais fácil de transportar maquinário e força de trabalho para a fronteira da selva do que para o seu centro. Isso facilita o início do processo de desmatamento a partir das bordas originais desse bioma. Embora o efeito do Arco do Desmatamento seja visível, não encontramos suporte para um efeito de distância até a fronteira no deslocamento de onças-pintadas”, diz trecho da pesquisa.

O estudo também aponta a possiblidade de as necessidades das onças já empurrarem as espécies para florestas mais profundas e intactas, reduzindo sua abundância em lugares onde a atividade humana tende a começar.

Onças-pintadas podem ser observadas no Pantanal de Mato Grosso Foto por: Mike Bueno

Os estados de Pará e Mato Grosso lideram o número de onças deslocadas pelo desmatamento. O desmatamento cumulativo nesses estados está claramente relacionado à expansão da soja e do pasto, inclusive da exportação para a China. A dinâmica das mudanças no uso da terra nesses estados parece estar conectada.

“Além disso, as políticas estaduais recentes também podem ser responsáveis ​​por parte dos padrões de desmatamento”, diz o estudo.

De acordo com a avaliação do risco de extinção da onça-pintada do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a onça-pintada é amplamente distribuída na Amazônia, ocorrendo em aproximadamente 89% do bioma.

Apesar da ampla distribuição, estimativas apontam que o tamanho populacional da espécie é inferior a 10 mil indivíduos. Nos últimos 27 anos, houve um declínio de pelo menos 10% da população devido à perda e fragmentação de habitat e à eliminação de indivíduos por caça ou retaliação.

De acordo com o biólogo e pesquisador da ONG Panthera, Fernando Rodrigo Tortato, que participou do estudo publicado, o objetivo da pesquisa é entender como a conservação da onça-pintada se relaciona com as atividades econômicas existentes no Pantanal.

“As melhores áreas para conservação da onça-pintada são as áreas com a menor densidade de pecuária. Historicamente, sabemos que a principal ameaça é o conflito ocasionado pela onça-pintada atacar o rebanho bovino e gerar uma caça e retaliação. Em contrapartida, essa mesma área é onde se concentra a maioria das pousadas de ecoturismo. Então as atividades econômicas estão em uma situação favorável para a conservação da onça pintada”, explica.

O biólogo afirma também que é importante entender que o Pantanal é uma área muito importante para a onça pintada e que é possível trabalhar com o manejo diferenciado, tentando reduzir a vulnerabilidade do rebanho para que seja possível a atividade de pecuária e a conservação da onça-pintada.

“Qualquer ação de conservação da onça-pintada necessariamente implica em parcerias e diálogos com o pecuarista. Temos que buscar soluções para garantir a proteção do Pantanal, que é um patrimônio do Brasil.

Ele afirma que acredita ser plausível o estado ter essa pecuária tradicional, que garantiu a manutenção da biodiversidade.

“A pecuária no Pantanal, da forma como ocorre de maneira extensiva, não representa uma ameaça pra nenhuma espécie”, afirma.

Fernando conclui falando sobre a importância da onça-pintada.

“É uma espécie bandeira, carismática, chama atenção e é muito importante. O papel ecológico dela também é muito importante. Pantanal sem onça-pintada não existe”, diz.

Turistas do país e do exterior procuram o parque para fazer a observação de onças-pintadas durante passeios de barco no Pantanal em Mato Grosso — Foto por: Igor Gaspareto

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